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Fale com estranhos

3 agosto 2010 20 Comentários
Quando duas histórias de amor se encontram numa mesa de restaurante na Holanda.

- Será que ele se importa de dividir a mesa com a gente?

old man walkingMe perguntava o (na)marido diante das mesas lotadas no terraço do restaurante De Kust em Utrecht. Reparei no senhor com olhar doce, mas determinado, concentrado em degustar seus camarões e disse que não haveria problema. Era uma longa mesa de piquenique dividida por uma simpática e enorme lata de óleo de oliva que parece ter nascido para ser jarro de planta.

Nossa proposta foi aceita na hora e os gracejos começaram. Emplaquei um sorriso sem graça e respondia a todo momento, “ hãhã, hãhã”. Pensava: Ai meu Deus, é agora que não vou ter paz para curtir meu inesperado jantarzinho de verão no meio da semana.

Era terça-feira e o cansaço, bom companheiro da preguiça, decidiu que não era dia de cozinhar. Tudo que queríamos era renovar o frescor do recente final de semana. Mas o velhinho, a cada momento, nos interrompia e fazia um comentário. O meu mau humor caminhava a passos largos, mas começava a desenvolver um sentimento dúbio. Me incomodava com as interrupções, mas ao mesmo tempo, simpatizava com aquele velho chatinho.

O clique

As nossas entradas chegaram e houve um momento de paz na mesa.  Até que ele ouviu algo relacionado ao Brasil e pediu licença para interromper. Contou que havia feito uma longa viagem ao Brasil e que havia visitado várias cidades. Ele já ia se calar, pedindo desculpas pelo incômodo e um clique aconteceu. A conversa tomou vida e rumo próprios e se apoderou da mesa e do instante.

As afinidades se destacavam entre os sabores e aromas mediterrâneos. Música? Ele havia tocado numa banda por muitos anos. Viagens? Ele havia rodado meio mundo e tinha a Itália com destino preferido. A conversa fluía e aquele brilho que acontece quando se descobre uma nova amizade cintilava nos olhos de todos.  Até que chegamos na encruzilhada da intimidade. Essa fronteira que muitas vezes é mais facilmente atravessada por um estranho do que por um conhecido.

O jogo da verdade

Ele começou a falar da sua esposa, falecida há 9 anos e nos contou como foi difícil e a aventura de se apaixonar. Ele frequentava uma escola que não tinha boa fama no colégio católico em que ela estudava. Por isso, os encontros aconteciam às escondidas  no Vondelpark, em Amsterdã. Nos falava com um orgulho apaixonado de quão independente era ela. Dizia: a minha mulher não foi emancipada porque não existia essa palavra na época.  Descreveu as coisas que ela não gostava e de como foram felizes, apesar das diferenças. Após a morte da esposa, passou dois anos recluso e então,  juntou forcas e reiniciou a vida. Começou a sair novamente e hoje tem uma amiga, que pode ou não virar uma companheira.

A roleta virou e era a nossa vez no jogo da verdade. Ele nos perguntou como nos conhecemos e contamos a história, nem tão original assim, de se conhecer pela internet e tal. Falamos das dificuldades, o  primeiro encontro, os desencontros, as decisões e indecisões, as  mudanças e tudo o que envolve a vida de um casal de nacionalidades diferentes. Ele olhava intensamente nos nossos olhos. Queria estudar a reação de cada um, verificar a autenticidade do amor.

Vergonha e aprendizado

Até que chegou um momento em que ele falou da perda do filho para um câncer de estômago no ano passado. Sem nenhuma pieguice, relatou a sua perda e, no momento certo, se despediu. Saiu andando a passos seguros e de costas, não pode ver os dois olhos marejados que deixou na mesa. Abobalhados diante do exemplo de paixão pela vida e envergonhados pela impaciência prematura, havíamos aprendido a dar tempo para olhar e ouvir as pessoas ao nosso redor.

Não sei seu primeiro nome, desconfio onde mora e já torço por um novo encontro surpresa.

Imagem: © Thomas Lieser

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20 Comments »

  • Lena said:

    Muito lindo!!

  • Senzatia said:

    Lindo post! Me emocionei. Sigo vc no twitter e vim ler o post e posso dizer que me vi sentada na mesa do restaurante em Utrecht com vcs. Torcendo pro novo encontro acontecer! :)

  • Ana Paula said:

    L I N D O !!!!

  • Cris Campos said:

    Que lindo!
    A história toda, mas principalmente o teu texto… me apaixonei pela tua escrita. :)

  • Bailandesa (author) said:

    Obrigada Lena e Paula.
    Senzatia, que bom que você gostou e se emocionou junto comigo. Essa foi uma experiência muito marcante e também torço pra acontecer de novo. Até breve. Pode ser aqui, no twitter, no Facebook ou em qualquer lugar. Obrigada e volte sempre.

  • Eliane said:

    Sabe, acho q “presentes” assim acontecem exatamente pra prestarmos mais atenção à nossa volta. Assim como algo essa bate-papo de almoço foi a companhia deste senhor naquele dia, esse momento tão bonito ficou pra vcs. E ficou pra mim teb q acabei de ler. Obrigada pelo relato. Adoro seus textos! bjs eliane

  • Bailandesa (author) said:

    Cris, fiquei muito feliz com a sua visita. Obrigada por se apaixonar .. :) Volte mais vezes

  • Bailandesa (author) said:

    Oi Eliane, certíssimo! Foi realmente um presente e me fez parar pra pensar. Muito poder compartilhar essa emoção com tanta gente. Espero te ver mais vezes por aqui.

  • Carla Duclos said:

    E voce acaba de deixar uma leitora com os olhos marejados.

    Que historia bonita. E eu me identifico 100% com o lance da impaciencia. Eu sou geralmente assim com estranhos. Quanto nao perdemos por ficarmos as vezes tao centrados em nos mesmos? Que bom que ela foi vencida! :)

    Beijo,

  • Bailandesa said:

    Pois é, Carla. Essa experiência serviu de lição. Temos que dar tempo para conhecer as pessoas, para ver o que está ao nosso redor. Como diz Lenine:
    ” Enquanto o tempo
    Acelera e pede pressa
    Eu me recuso faço hora
    Vou na valsa
    A vida é tão rara…”

  • Simone said:

    Ai que lindo, pessoas assim são estrelas cadentes que passam por nossas vidas.
    Bjosss

  • Bailandesa (author) said:

    Pois é Si, isso é muito bom quando acontece!

  • Claudia Cintra said:

    Lindo!! Que fofinho esse senhor!! Adoro conhecer lugares e ouvir o que as pessoas tem a dizer. Logo mais, estarei ai na Holanda e quem sabe eu não tenha a sorte de ouvir histórias como essas! Beijos e fique com Deus

  • Bailandesa (author) said:

    Olá Claudia, eu realmente espero que você tenha encontros como esse. Esse tipo de situação nos faz parar pra pensar e nos enche de estímulo pra viver.
    Seja bem-vinda! Sucesso.

  • Anita said:

    Ai que texto perfeito. Fiquei sua fa e vou voltar.

  • Bailandesa (author) said:

    Ah, Anita fiquei boba :) . Você volta e eu vou correndo no seu blog conferir,
    Obrigada e volte mais vezes.

  • Aninha said:

    Olá!
    Eu dei uma olhada aqui em seu blog e gostei muito.
    Tenho vontade de ir à Holanda pra estudar, mas ainda tenho muitas dúvidas, até porque eu precisaria trabalhar para estudar lá, e penso que não será nada fácil pra mim. Sei que existem vários sites sobre o assunto, mas eu gostaria muito de ouvir a opinião de alguém que mora lá.
    Será que você poderia me passar seu e-mail, ou Msn?
    Eu agradeceria muito!
    Ah! E adorei o post “fale com estranho”. Tenho seguido essa filosofia ultimamente. Ônibus, geralmente, é o melhor lugar pra fazer isso.

    Abraços,

    Ana

  • Bailandesa (author) said:

    Olá Ana, que bom que gostou do post. Você pode mandar o email para contato@bailandesa.nl. Terei em prazer em te responder.
    Um abraço

  • Mércia said:

    Nossa que lindo…….Um brinde ao sorriso que abre as portas para o desconhecido.

  • Bailandesa (author) said:

    Oi Mércia, obrigada pela visita. O encontro foi lindo e realmente mudou minha atitude emr elação às pessaos desconhecidas. Volte mais vezes.

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