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Médico na Holanda. A arte do Huisarts

8 maio 2011 11 Comentários

huisartsConsidero-me uma pessoa bem integrada. Consigo me comunicar – e me trumbicar -no idioma, estabeleci uma vida com trabalho, vida social, amigos e quase tudo que tinha no Brasil. Além disso, hoje, entendo melhor as idiossincrasias dos kaaskoppen (cabeças-de-queijo). Mas tem uma coisa com a qual ainda bato cabeça: o sistema médico da Holanda. Esse para mim é um dos maiores desafios de integração para um estrangeiro.

Aqui, você não pode decidir ir por conta própria a um cardiologista, dermatologista ou qualquer outra especialidade. Todos devem ter um huisarts, algo como médico de família. Esse é um médico generalista que detém o seu histórico, teoricamente conhece bem a sua saúde e vai decidir se você precisa ou não visitar um especialista.

A minha primeira experiência com o huisarts não foi das melhores. Era uma situação de emergência, uma grande queimadura de 2o grau, e o ouvi a seguinte pérola :

sei que está doendo, mas a dor aqui não é o mais importante. Temos é que
prevenir uma infecção.

Foi neste momento, que senti literalmente na pele a estranha relação triangular entre o holandês a dor e o Paracetamol. Sim, se você acha que aqui é o paraíso da liberalidade em relação às drogas, lamento informar que isso não é bem assim e muito menos para drogas legais, como um antinflamatório, por exemplo.

Fui para casa com uma receitinha de Paracetamol, com um limite máximo de oito unidades por dia, e só consegui algo adequado ao meu grau de dor depois de dar um show digno de uma égua de rodeio. Mas depois dessa experiência traumática e de outros acontecimentos, aprendi algumas coisinhas que me ajudaram a compreender um pouco mais essa desavença de culturas. Deixa eu contar pra vocês:

Todo mundo fala inglês fluente na Holanda


Não caia no conto de que todo mundo fala inglês aqui. Se você mora fora das grandes cidades, você pode ter uma grande surpresa. Até médicos, às vezes, não são tão fluentes assim. Falo por experiência própria. O que fazer? Se você não fala inglês, nem holandês, tente conseguir recomendações de conhecidos, consulado de médicos que falam português ou espanhol ou, se puder, vá acompanhado de alguém que fale o idioma.

 

Visões diferentes

A grande diferença no tratamento é cultural. A filosofia adotada aqui é o de interferir o mínimo possível no processo de cura . Enquanto que em outros países o uso de medicamentos chega a ser um escândalo. O difícil é achar o meio-termo. Então, já sabe: quer seu remédio? Aja com sinceridade. Explique que você vem de uma cultura diferente e que não quer sair do seu consultório sem a receita.

Importante: segundo a minha experiência, o Paracetamol realmente é eficiente pra dor. Tomado de forma regular de 4 em 4 horas, há o alívio da dor. No entanto, somos tão acostumados com a idéia do “remédio forte” que achamos que não vai adiantar. Mas claro que existem situações agudas e para isso é que existem os chamados ” remédios fortes”.

 

A escolha e a troca de Huisarts


Esse é o médico que vai te acompanhar, ouvir suas queixas e saber de muita coisa da sua privacidade. Então já sabe que tem que escolher bem e se não está satisfeito, trocar. E aí, aviso logo, você pode encontrar resistência. Existe um acordo tácito entre os médicos de não tomarem pacientes um dos outros. Trocar de huisarts quando você muda de cidade é bem aceito, mas quando a troca se deve por insatisfação, é vista com outros olhos. Mas esse é um direito seu e previsto em lei. Um paciente pode ser rejeitado nas seguintes situações:

- Se não há mais como atender novos pacientes.
- Se o paciente mora muito longe (mais de 15 minutos de viagem – sim, aqui isso é longe!)
- se o paciente for tratado nos últimos seis meses em regime temporário.

A recomendação é de que o paciente tente conversar com o médico e tente explicar a sua insatisfação. Se isso um solução não for encontrada, que faça-se a troca. Se encontrar dificuldades, você pode fazer uma reclamação formal á Klachtencommissie Huisartsenzorg, uma comissão de reclamações sobre o serviço de huisarts. Obtenha mais informações sobre essa comissão no LHV Landelijke Huisartsenvereniging - União Nacional dos Huisarts ou no Nederlandse Patiënten Consumenten Federatie (algo como, federação Holandesa de Pacientes Consumidores).

 

Perguntar não ofende


Uma outra coisa que você vai estranhar é que você não fica com o resultados de exames. Você vai ouvir se está tudo bem ou não e algumas explicações sobre os resultados. Geralmente ele são muito diretos e falam apenas o necessário. Meu conselho: tire todas as suas dúvidas. Pergunte tudo o que saber. Se for um velho problema que você já conhece, demonstre que você tem conhecimento e experiência com tratamentos anteriores.

 

A assistente – passando pelo funil

Você não está se sentindo bem, liga e quer falar com o médico. Situação normalíssima, certo? Certo se não houvesse um beque na defesa chamada a assistente. Ela – geralmente é mulher -atende o telefone e faz uma série de perguntas, tentando auxiliar no diagnóstico. A sua impressão é de que a mocinha da recepção resolveu brincar de médico ou tirar onda com a sua cara. Não é bem assim. Essa é uma pessoa que recebe adequado treinamento e sabe o que está fazendo. Ela auxilia e organiza o trabalho do médico. Mas que é irritante, é. Não posso negar.

 

A fila para o especialista


Depois de passar pela barreira da assistente e convencer o seu huisarts de que você precisa ir ao especialista, você pensa que todos os sesu problemas estão resolvidos. Aviso que talvez demore mais um pouquinho. As filas para os especialistas podem ser longas e você pode ter que esperar semanas para a sua consulta. Uma dica: os seguros saúde têm um serviço que pode acelerar esse processo. Procure se informar com o seu. Também os huisarts, em caso de urgência, aceleram o processo.

Espero ter podido trazer uma pequena luz para um assunto que traz muitos problemas para o processo de adaptação aqui na Holanda. O que recomendo é ter sempre em mente que o melhor remédio é ter informação para tentar entender a outra cultura; e não apenas resistir.
Imagem: medicalfacts.nl
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11 Comments »

  • Ana Cláudia Mattos said:

    Ai meu Deus… o que seria de mim sem minha Neosaldina…

  • Bailandesa said:

    Calma lá, esses remédios você pode comprar. O que não pode são antinflamatório, remédios com cortisona e etc…

  • Anonymous said:

    Excelente post!!!! muito esclarecedor. Com relacao ao paracetamol eu ja sabia entao trouxe do Brasil meus remedinhos mais pesados para o caso de uma emergencia…claro que o meu namorido achou um exagero – hehehe

    beijo
    Juliette

  • Bailandesa said:

    É isso aí Juliette, voupara o Brasil em breve e vou fazer minha farmacinha :)
    Obrigada pela visita e comentário

  • Anonymous said:

    Clarissa,

    Ninguém definiu melhor o sistema de saúde daqui como você neste post ! Ele deveria estar lá no site da Márcia .
    Eu tive sorte com o huisarts, devo admitir. Os encaminhamentos que precisei para especialista foram dados sem questionamentos.
    No comeco achava um absurdo, mas, aprendi a conviver com esse sitema diferente. Só não consigo entender essa “tolerância” à dor a que nos impõem…

    Um abraco,

    Susana

  • Bailandesa said:

    Obrigada Susana! Pois é, também não entendo muito bem essa coisa em relação `a dor.

  • Fernando S. Trevisan said:

    Clarissa, muito bom o post! Acho que a Dani postou (ou comentou direto comigo) sobre isso em algum momento.

    Fora a espera depois de encaminhado para um especialista, eu acho esse sistema aí coerente e lógico… acho interessante ter um especialista que te conhece realmente bem e há muito tempo e sabe dos teus problemas, sem prejuízo de eventualmente te encaminhar para um especialista.

    Valeu pela info :)

  • Bailandesa (author) said:

    Oi Fernando, muito obrigada pelo seu comentário. Também acho o sitstema coerente e logico. O problema mesmo é se adaptar à filosofia de “sempre esperar pra ver”. Não existe muito a cultura de investigação, check-ups etc. O alívio a dor não é levado tanto em conta e acho que culturalmente o povo encara como “parte do processo”. Enfim, é mais um choque de culturas do que problemas com o sistema m si. Sem falar que estamos falando do sistema público – pago, é verdade – mas não dá pra comparar com o privado (e para poucos) no Brasil.

  • Anita said:

    Já tive diversas experiências com huisarts, boas e ruins. Ótimas (quando tive pneumonia) e péssimas (vacina errada para minha filha). Nao vou entrar em detalhes por aqui. A última experiência – que classifico como “neutra”- vez foi mês passado quando me vi com um vrouwprobleem (imaginem o que quiser) e não estava a fim de ser examinada ginecologicamente (tá bom, confessei o “vrouw probleem”) pelo meu huisarts. Liguei e direto pra assistente já fui confessando que meu huisarts era excelente mas que eu queria dessa vez uma rápida consulta com uma médicA. Ela perguntou se era um “vrouwprobleem” e na hora me deu um horario com uma médica. No passado isso seria impossível, acho. Mas acho que eles estao deixando de ter um protocolo radical.

  • Bailandesa (author) said:

    Oi Anita, é bom saber de histórias bem-sucedidas. Devo dizer que tive ótimas experiências com especialistas, mas com huisartsen ainda não. Concordo que o radicalismo tem abrandado e os médicos mais jovens me parecem mais flexíveis.

  • yone said:

    Clarissa, confesso que o assunto Huisart é uma pedra no sapato para os brasileiros aqui na Holanda.Minha mãe é médica de família no Brasil e ela concorda com o sistema público na Holanda, porém com algumas ressalvas:
    -Primeiro o mínimo que um clínico geral pode fazer numa primeira visita de um paciente, é examinar a pressão, coração…isso é praxe no Brasil, mas pelo menos comigo não aconteceu.

    - Segundo é que se o médico suspeita de um diagnóstico, ele pode até antecipar a sugestão de uso do medicamento mas penso que em seguida ele tem de confirmar o diagnóstico com exames.Bom, cheguei no consultório com uma suspeita de refluxo, mas daí pra ele me receitar um medicamento e não confirmar o diagnóstico para uma doença crônica…Segundo o médico se os meus exames antigos no Brasil não acusaram nada, eu não preciso repeti-los

    - A outra coisa que você já citou é a falta de política preventiva.Não sei a estatística mas sempre ouço dizer que o holandeses morrem muito de câncer.Mas aqui na Holanda eu só posso fazer uam mamografia qdo tiver 52 anos!!!!!.Eu tenho 42, 3 casos de câncer na família, sendo que um deles – o de mama, aconteceu justamente com minha mãe.O huisart me mostrou um livro onde diz que nesse caso eu ainda não faço parte do grupo de risco, portanto se eu sentir a presença de algum nódulo, posso voltar que ele solicita o exame.Com certeza qdo vou ao Brasil vou fazer o meu exame.

    - Terceira coisa é que todo sistema público controla os exames mais caros, porém há exames básicos como o as análises clínicas, raio-x, etc.Então sofri uma queda terrível de bike e senti o cotovelo direito diferente do outro, além de sentir dor no braço…isso depois de 2 a 3 semanas.O huisart faz uns exercícios no meu braço e me diz que deve ser o trauma da queda.E o raio-x???.Não sou paranóica mas aquele seria um exame básico pra constatar fraturas que muitas vezes não são visíveis a olho nu.Bom, contimuo sentindo o osso do cotovelo e agora qdo voltar lá, vou pedir( exigir) o exame.

    - Sobre a questão da medicação, eu até concordo que no Brasil é um oba-oba…(parece que agora isso até está mudando)e que o paracetamol é muito eficaz em vários casos.Pelo menos aqui me parece que as empresas são bem tolerantes em relacão a doença.Então se o efeito do paracetamol for lento e a pessoa continua mal…o jeito é ficar em casa até melhorar.

    Beijocas

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