Archive for the 'dia-a-dia' Category

[Holanda] Fale com estranhos

Quando duas histórias de amor se encontram numa mesa de restaurante na Holanda.

- Será que ele se importa de dividir a mesa com a gente?

old man walkingMe perguntava o (na)marido diante das mesas lotadas no terraço do restaurante De Kust em Utrecht. Reparei no senhor com olhar doce, mas determinado, concentrado em degustar seus camarões e disse que não haveria problema. Era uma longa mesa de piquenique dividida por uma simpática e enorme lata de óleo de oliva que parece ter nascido para ser jarro de planta.

Nossa proposta foi aceita na hora e os gracejos começaram. Emplaquei um sorriso sem graça e respondia a todo momento, “ hãhã, hãhã”. Pensava: Ai meu Deus, é agora que não vou ter paz para curtir meu inesperado jantarzinho de verão no meio da semana.

Era terça-feira e o cansaço, bom companheiro da preguiça, decidiu que não era dia de cozinhar. Tudo que queríamos era renovar o frescor do recente final de semana. Mas o velhinho, a cada momento, nos interrompia e fazia um comentário. O meu mau humor caminhava a passos largos, mas começava a desenvolver um sentimento dúbio. Me incomodava com as interrupções, mas ao mesmo tempo, simpatizava com aquele velho chatinho.

O clique

As nossas entradas chegaram e houve um momento de paz na mesa.  Até que ele ouviu algo relacionado ao Brasil e pediu licença para interromper. Contou que havia feito uma longa viagem ao Brasil e que havia visitado várias cidades. Ele já ia se calar, pedindo desculpas pelo incômodo e um clique aconteceu. A conversa tomou vida e rumo próprios e se apoderou da mesa e do instante.

As afinidades se destacavam entre os sabores e aromas mediterrâneos. Música? Ele havia tocado numa banda por muitos anos. Viagens? Ele havia rodado meio mundo e tinha a Itália com destino preferido. A conversa fluía e aquele brilho que acontece quando se descobre uma nova amizade cintilava nos olhos de todos.  Até que chegamos na encruzilhada da intimidade. Essa fronteira que muitas vezes é mais facilmente atravessada por um estranho do que por um conhecido.

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[Holanda] Copa 2010. Torcedora no campo “adversário”

Engana-se quem pensa que esse é um post sobre futebol. Não me atreveria. Hoje em dia sou torcedora ocasional: apenas de jogos importantes e Copa do Mundo. Palpito, grito e sofro durante os jogos, mas não ousaria palpitar por escrito.

O negócio é que, como tantos outros, deixei-me envolver pela febre sazonal de bola. A diferença é que dessa vez estava jogando na minha segunda casa e não no meu campo oficial ( ou original?)

Devo dizer, a partida de futebol entre Brasil e Holanda me tocou mas do que imaginava ou do que gostaria. Não pelo futebol, mas por me por em xeque. Não gostei da sensação de ficar irritada ao ver os holandeses felizes da vida. Me senti meio dividida e enfurecida comigo mesma, especialmente por ter um holandês em casa.

Terminou o jogo e a porção brasileira decepcionada e irritada queria ir pra casa. Queria enterrar a cabeça no freezer até a manhã seguinte. O lado batavo cutucava:

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[Holanda] Estresse, imigração e um minuto para pensar

Diante mim um espresso e doces da pastelaria portuguesa. Sentada numa praça em Coimbra, em Portugal, conversava com um jornalista de outra nacionalidade. Sem mais nem menos ele saca do bolso uma pergunta direta. Dessas que veem do uso de uma língua não nativa. É, às vezes a estranheza de uma língua cria caminhos mais curtos entre as pessoas.

- Qual o maior estresse na sua vida?

Olhei para ele, tentando atravessar o meu próprio reflexo nas lentes dos seus óculos e respirei (ou suspirei?) fundo. Pela primeira vez em muito tempo ouvia uma pergunta que me fazia parar para pensar. Não por se tratar de uma pergunta complicada, mas porque me forçava a olhar para mim mesma e para a minha vida. A primeira palavra que me veio foi: meu trabalho. Mas antes de responder, nessa fração de segundos em que o cérebro faz suas sinapses e concatena pensamentos em palavras, fiz uma viagem ao meu recente passado.

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[Holanda] Páscoa. Holandesa, mas com limites.

Em quase quatro anos de Holanda tive a mais batava das Páscoas. Pela primeira vez comemoramos a data com direito a um brunch, família reunida e alguns chocolates. Na mesa não faltaram ovos recheados, decoração com pintinhos, muito amarelo, cores e papos alegres. Mas existem coisas que vão além da minha capacidade de integração. No sábado, num jantar em casa de amigos, descobri mais uma tradição holandesa que desconhecia – e que vou continuar ignorando por completo.

Meubelboulevard

A Holanda, juntamente com a Bélgica e partes da Alemanha são os únicos países que manteem a conveniente tradição do Segundo Dia de Páscoa. O coelho não passa de novo, mas a segunda-feira pós domingo de Páscoa é feriado. Não religioso, mas um dia de descanso. Para mim, acordar tarde, botar as pernas por ar, ler o jornal inteiro ou atualizar o blog. Mas se fosse manter a tradição cabeça-de-queijo, Full Story »

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Astoria. Uma atração que devia ser turística

astoria2Num desses dias de início de inverno, quando o frio cortante também traz uma excitação de nova estação, tinha uma reunião de trabalho em Amsterdã. Desligo o laptop, corro pro trem, acho o tram (bonde) na confusão da Amsterdam Centraal e salto no Jordaan – eu sei, a distância não é tanta, mas a pressa e o frio me incentivaram a pular no quentinho do tram .  Passo em frente a estátua de Anne Frank, releio o endereço: Keizersgracht, 174-176. Sigo em frente, passo pelo Homomonument e vou descendo o famoso canal.

Na esquina com Leliegraacht, abro uma imponente porta e um mundo art-nouveau ou jugendstil descortina-se para os meus olhos. Olho pra todos os lados. Um lustre inacreditável ilumina a incrível escadaria. E  o anjo no mosaico da fachada não protege em nada a minha concentração. Ufa, entro no elevador e recobro, com esforço, o foco profissional. Ao entrar no escritório, um tanto quanto efusiva, elogio a beleza do edifício e após o café, as enfim, as coisas correm normalmente. Mas foi uma paixão à primeira visita.

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Antissocial, eu?!

Assim como temos a nossa “saudade”, o idioma holandês, dentre outras tantas palavras ora indecifráveis, ora impronunciáveis, tem a sua intraduzível “gezellig”. Gezellig significa algo próximo de aconchegante, caloroso, simpático, agradável. Assim, uma festa pode ser gezellig, como também uma casa, uma viagem, uma pessoa ou  até mesmo um país.

anti-social

Essa palavrinha, que a princípio parece bem complicada de falar,  num bom jeitinho brasileiro e aportuguesado, seria próximo de “Rezela”. Ela não sai da boca do povo holandês, no entanto, muitas vezes não reflete no seu comportamento. Uma atitude oposta ao conceito “rezela”  de ser, seria uma atitude “asociaal” – associal ou antissocial em português.E acreditem ser  classificado como “asociaal” é um ofensa muito grande na Holanda.

Paradoxalmente, no início do ano, foi feita uma pesquisa com 1000 holandeses e 95% deles afirmaram ter um comportamente antissocial de vez em quando. Apenas 18% deles afirmaram ter sidos chamados a atenção por outros pelo seu “desvio de conduta” . Mas o que seria classificado como um comportamento “asociaal”? Bom, a SIRE, um organização sem fins lucrativos lançou uma campanha em março deste ano para conscientizar a população de várias situações em que as pessoas agem de forma associal sem se dar conta. Quem age dessa forma é o  ”Onbewust asociaal” ou o associal inconsciente.

Confira os videos e veja se você  já esteve em alguma situação dessas…como espectador ou como protagonista:

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O nordeste é logo alí….na Indonésia.

Sabe o que mais gosto? É de mesmo depois de 3 anos de Holanda encontrar coisas que me surpreendem. Ainda mais quando são coisas que aguçam o meu paladar saudosista.

rapaduraEstava na Bijenkorf, tradicional loja de departamentos da Holanda, e resolvi passar no Toko que fica no subsolo da loja de Utrecht. Toko é um tipo de delicatessen de produtos orientais, muito comum aqui na Holanda. Algumas são mais orientadas para produtos chineses, outras Indonésios e algumas produtos do Suriname. Mas na verdade, o que existe é uma curiosa mistura de produtos exóticos para essas terras planas e baixas. Para mim, um real paraíso a ser explorado.

Pois é, resolvi dar uma passadinha na Toko da Bijenkorf, que é mais orientada para produtos Indonésios e eis que vejo algo marrom, redondinho e com os seguintes nomes impressos na embalagem ” Palm Suiker”. Full Story »

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Frustações em duas rodas

Já são 3 anos de praia (ou de chuva) aqui na Holanda e olhando pra trás, devo dizer que as minhas habilidades ciclistíscas melhoraram sensivelmente. Já não tremo quem nem vara verde quando um carro desponta a 500 metros de distância, já não fico estressada esperando o sinal abrir e ser quase atropelada pelos ciclistas apressadinhos perdi o medo do tim-tim histérico da campainha das bicicletas nativas. Enfim, a cada dia me sinto mais confortável na magrela e pago cada vez menos micos sobre duas rodas.

No entanto, existem diferenças entre se virar como ciclista e ser holandês. Os cabeças-de-queijo já nascem com a bicicleta entre as pernas e acho que aprendem a pedalar antes de andar. Para se ter uma noção são 18 milhões de bicicletas; uma média de 1,1 bicicleta por habitante. A produção em 2008, a maior da Europa, foi de quase 600.000 undades. Assim, já viram que dá pra se integrar, mas não dá pra competir, né?

Para desabafar as minhas frustrações ciclísticas, resolvo mostrar o que ainda não sei e talvez nunca aprenda a fazer numa fiets ( bicicleta em holandês)

Sem usar as mãos

Para os holandeses, usar as mãos enquanto pedalam é um ato supérfluo. Por isso, enquanto pedalam para o trabalho, eles:

Fiets_krant

fiets_iphone

E se tiver alguma ameaça de chuva, não tem problema. Eles sacam o guarda-chuva com a maior elegância e continuam as suas atividades matinais.

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Supermercado: mémorias de uma turista

Olho pra moeda em minha mão, vejo as letras AH impressas em um logo azul e branco, a coloco na tranca no carrinho e sigo para a entrada do supermercado. Já estou com a minha sacola de compras a postos, cheias de garrafas plásticas de refrigerantes vazias. As de vidro, junto com outros potes, foram jogadas no devido conteiner, no meu caminho de casa até o supermercado. As ações que descrevo, faço de maneira natural, quase automática. Mas nem sempre foi assim….3ea8d219-76ce-41bc-96c0-150f8be2946c

Ao olhar para moeda, lembrei do primeiro dia em que entrei no supermercado aqui na Holanda. Estranhei o tamanho; proporcional a o tamanho do país, talvez.  As gôndolas devidamente arrumadas, lindos tomates e ah, sim, as embalagens. Me apaixonei por elas. Amei as suas instruções indecifráveis, a aparência superatraente e ao primeiro olhar, pareciam bastante práticas.

Recordo a surpresa ao ver que as sacolas plástcas eram vendidas e que quase todos tinham as suas sacolas de compras. Alguns não se importavam de carregar as compras na mão, outros pegavam caixas vazias para acomodar os artigos e outros usavam os saquinhos plástico finíssimos; esses sim, gratuitos.

Os carrinhos enfileirados na porta da loja, só eram liberados mediante Full Story »

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Hard to say I’m sorry

Tive livros jogados fora por uma recepção de um hotel, incontáveis encontrões na rua, no trem, esbarrões de bicicleta, sem receber um pedido de desculpas feito de forma digna.  O prefeito de Amsterdã, em março deste ano, se recusou a fazer um pedido formal de desculpas a jovens que injustamente foram presos, suspeitos de terrorismo num suposto ataque à Ikea em Amsterdam.  Segundo ele, não havia cometido nenhum erro. No ano passado, foram várias polêmicas envolvendo o assunto: as desculpas nunca pedidas pelos banqueiros pela má gestão na crise, o ” pede não pede” desculpas da Holanda ao Suriname por todo o histórico colonial. Enfim, o assunto está sempre na roda, mas nunca na prática.

sorry_212645eMuitas vezes, ao pedir desculpas, vislumbrei um olhar de surpresa no rosto de muitos holandeses. E ouvi um sonoro ” Geef niet, hoor!”. Algo como não precisa. Me pergunto: por que será tão difícil para os holandeses pedir desculpas? Talvez seja somente minha experiência, mas noto um total desconforto em relação ao assunto. É quase como se fosse uma atitude de subserviência, fraqueza de caráter, em lugar de educação e reconhecimento do erro. E os holandeses não teem nada de subservientes. Isso, se um por um lado é bom para a auto-estima, levado a extremo resulta em arrogância.

Extrapolando, talvez a rigidez do Calvinismo influencie. Pedir desculpas talvez represente um ato de safar-se do ato falho, sem encarar as consequências. Seria talvez um repúdio ao costume católico da confissão, que é capaz de resolver até o pior dos pecados?  Quem sabe….

Pedir desculpas não é coisa fácil. Full Story »

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