Tive livros jogados fora por uma recepção de um hotel, incontáveis encontrões na rua, no trem, esbarrões de bicicleta, sem receber um pedido de desculpas feito de forma digna. O prefeito de Amsterdã, em março deste ano, se recusou a fazer um pedido formal de desculpas a jovens que injustamente foram presos, suspeitos de terrorismo num suposto ataque à Ikea em Amsterdam. Segundo ele, não havia cometido nenhum erro. No ano passado, foram várias polêmicas envolvendo o assunto: as desculpas nunca pedidas pelos banqueiros pela má gestão na crise, o ” pede não pede” desculpas da Holanda ao Suriname por todo o histórico colonial. Enfim, o assunto está sempre na roda, mas nunca na prática.
Muitas vezes, ao pedir desculpas, vislumbrei um olhar de surpresa no rosto de muitos holandeses. E ouvi um sonoro ” Geef niet, hoor!”. Algo como não precisa. Me pergunto: por que será tão difícil para os holandeses pedir desculpas? Talvez seja somente minha experiência, mas noto um total desconforto em relação ao assunto. É quase como se fosse uma atitude de subserviência, fraqueza de caráter, em lugar de educação e reconhecimento do erro. E os holandeses não teem nada de subservientes. Isso, se um por um lado é bom para a auto-estima, levado a extremo resulta em arrogância.
Extrapolando, talvez a rigidez do Calvinismo influencie. Pedir desculpas talvez represente um ato de safar-se do ato falho, sem encarar as consequências. Seria talvez um repúdio ao costume católico da confissão, que é capaz de resolver até o pior dos pecados? Quem sabe….
Pedir desculpas não é coisa fácil. Me refiro ao pedido de desculpas verdadeiro e não ao corriqueiro. Aquele que vem na hora certa, para e pela pessoa certa e no momento exato. Mas, mesmo o pedido corriqueiro, aquele quando você esbarra ou pisa no pé de alguém, pode fazer o outro se sentir melhor do que ser ignorado. Lendo esse artigo ( sorry, o artigo está em holandês), no qual o jornalista se diz cansado de ouvir desculpas, senti exatamente essa postura que vejo por aqui: a de que se desculpar é desnecessário. Que esse senhor, me desculpe a franqueza, mas educação e um toque humanidade, pra mim são essenciais.
Por outro lado, eles adoram um alstublieft (por favor) e nós brasileiros nem tanto assim. Nos satisfazemos com um tom de voz diferente, mais amigável. Isso , às vezes, pode causar desentendimentos. Aqui, não se pede nada sem usar por favor. Não dá pra usar aquele ” você, pode pegar isso pra mim?” e parecer educado. Confesso que nem sempre falo ou falo com alguns segundos de atraso. Até o momento, não tive grandes malentendidos e você, pede desculpas sem problemas e sempre usa por favor?
Imagem: nrc

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Fernanda
23/07/2009
Adorei o post. Pra mim é super tranquilo e não me sinto a mais culpada dos mortais porque preciso pedir desculpas, pelo contrário, fico feliz em perceber que reconhecí o meu erro a tempo de tentar concertá-lo.
Bjo, Fe
(quem é o menininho da foto? tá lindinha!)