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2010, você já foi tarde!

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Pai-filha2010 não deixará saudades. Como sentir falta de um ano que apagou um dos meus faróis. Aquele que me guiou e me ensinou amar as letras, de quem herdei as sobrancelhas grossas e esse jeito conciliador. Como celebrar um ano que levou quem me ensinou a caminhar e, ao mesmo tempo, teve a paciência de, na praia, me segurar no colo porque não suportava o contato da areia fina nos meus pés. Acho que foi aí que comecei a aprender a sonhar. Se não queria pisar no chão, ele me provava que era possível flutuar.

Na infância, as noites começavam com suas histórias, acompanhadas de suas adoráveis e desafinadas canções de ninar. No café da manhã me enchia de manias;  retirar as sementes da banana da terra cozida era apenas uma delas. Pela nossa semelhança, carrego até hoje a versão feminina do seu apelido de família

Familia

Companheiro, juntava suas lágrimas às minhas assistindo filmes antigos e assim inundávamos o sofá e as nossas tardes. Na adolescência, curou minhas ressacas sem nunca fazer um só sermão e quando bem cedo arrumei um namorado, me convidou a trazê-lo para a porta de nossa casa. Enfim, era o pai liberal que fazia inveja às colegas de colégio e as deixava estupefatas ao conversar abertamente sobre os tais assuntos polêmicos. Mas não se enganem: tinha lá seus arroubos de pai de donzela.

Se me ensinou a me emocionar com a música em toda a sua diversidade e plenitude, nunca protestou diante dos meus berros e xingamentos no estádio de futebol. Entre apostas com seus amigos, um amendoim cozido e um rolete de cana, o adversário, o pobre do juiz e a mãe dele sempre levaram desaforos pra casa diante de um pai orgulhoso.

No meio da sua responsável indisciplina e infindável compreensão, conseguiu construir uma sólida família no exato tamanho da aconchegante bagunça. Cercado por mulheres, viveu sempre em minoria. Em casa eram quatro, sem contar a cadela -como sempre ressaltava. Dizia sentir-se como um diretor de internato feminino. Como se não bastasse, ainda convivia com as suas incontáveis pacientes. Dedicava a cada uma delas paciência e atenção inesgotáveis; mesmo quando ligavam às 3 da manhã pedindo instruções sobre a pílula anticoncepcional que havia caído no ralo da pia.

 

Fez da vida a sua profissão e, enquanto ajudava mulheres a realizar o sonho de ser mãe, fazia nascer em mim a certeza de que tudo é possível, desde que nunca se pare de sonhar e de compreender quem está a seu lado.

Por essa e muitas outras é que não, não sentirei saudades desse ano que se foi. O ano de 2011 abre as portas, mas dessa vez não será a mesma coisa. Não sigo sozinha, eu sei. Mas sim, sob uma luz diferente. Passo a passo, caminho agora guiada pela chama da saudade e da memória.

2010, você já foi tarde. Pai, você foi muito cedo.

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23 Comentários

    • Oi Lena, Muito obrigada. Escrever é minha paixão e terapia. Às vezes acho mais fácil do que falar. Principalmente quando é sobre sentimentos…

      Obrigada pela visita e volte sempre que quiser

  1. Bruno Divetta on

    Olá Nanda. É minha primeira vez aqui, mas saiba que fiquei apaixonado por seus textos. Fui descobrindo seu post, um a um, até chegar neste. Fiquei emocionado. Sei que seu pai estará sempre contigo. Todas as pessoas que amamos, basta um pensamento, imaginar um abraço bem apertado nelas, que elas recebem esse abraço. Tente 😉 Um beijão

  2. Fernanda Milton on

    Tita que lindo!!! Nunca vou esquecer que quando o meu pai morreu um ano depois eu resolvi morar no USA falei pra minha mae e ela me perguntou com quem eu ia falei sozinha e ela queria saber mais e eu falei que estava apaixonada… Ela me perguntou se eu era virgem eu disse que nao ela me mandou rezar uma missa para mim comprou uma passagem para eu ir a Bahia para casa do meu padrinho ja que eu nao tinha mais o meu pai. Nao sei exatamente o que ela falou com meu dindo eu so lembro de esta em sua casa em pleno carnaval ele com uma caixa de lanca perfume e me perguntou: Porque Aninha te mandou aqui mesmo e explicando que eu nao era mais virgem e que ela mandou rezar uma missa pra mim ele falou: Ligia minha filha aqui nos temos que mandar fazer uma procissao!
    Esse era o meu dindo. So quem conheceu e que sabe!!!! Ate eu que estava longe por todos esse anos para falar a verdade essa foi a ultima vez que o vi e sinto muito a sua falta de tanto que ele era marcante, diferente, e acima de tudo tinha muito amor!!!!

    • Nanda, que história maravilhosa!! Só ele mesmo pra sair como uma dessas. Você era muito querida por ele. Ele tinha uma amizade imensa por seus pais. Saudades daqueles tempos de Rock in Rio, Carnaval da Bahia e tantas farras.

      Beijo grande na família!

  3. Impossível definir melhor esse pai dedicado, amoroso, liberal na medida certa, sem esquecer os valores familiares. Construiu uma relação de respeito , admiração e amor com todas nós, as mulheres da sua vida.

  4. Ana Cláudia on

    Mana,

    Somos o que somos pela criação amorosa que recebemos dos nossos pais.
    Ele virou uma estrela que trá sempre iluminar os nossos caminhos.
    Bjo grande e saudades.

  5. Júlio Mattos on

    Saudade de Vôvô! Todos os lugares la de casa que eu olho eu lembro dele! Saudade sem tamanho! 🙁

    • Nem fala, Ju. O importante é saber que ele teve uma vida completa: uma família feliz, amava a sua profissão e tinha muitos amigos. Nós também fomos privilegiados de conviver com ele e conhecer essa pessoa inesquecível. A saudade será eterna, mas sabemos que estamos com ele o tempo todo. beijo grande da titia

  6. Sem muito o que dizer, cito o grande Guimarães Rosa… ” o mundo é mágico, as pessoas não morrem, ficam encantadas”.

    um abraço

  7. Cla, words are so powerful.
    Beautiful, this hommage to your father. I wish you the best of all in 2011.
    Let’s meet soon!
    Bj E
    ps: I put the text through a translator ’cause I wanted to be sure to understand what you said.

  8. As palavras não poderiam ser melhores e mais bonitas p/ prestar uma homenagem a ele.

    Tenha certeza de que 2011 irá te surpreender! 🙂
    Conte comigo.
    Beijokas

  9. Clarissa,

    Sinto muito saber que seu pai se foi tão cedo… Fiquei com o coração pesado ao ler o teu post, pesado de uma dor que eu bem conheço, porque eu também perdi o meu pai em 1996 e ele era um de meus pilares nessa vida.

    Um novo ano começa e você como bem disse: não está sozinha e se Deus quiser, e Ele quer, você, um dia, irá superar a dor, e poderá falar de seu pai sempre com saudades, mas com amor eterno, e entenderá que ele viverá para sempre, como o meu: porque eu sei que meu pai vive em mim, também por ser semelhante fisicamente a ele, por tudo o que ele me ensinou, pelas histórias que me contava…

    Força, garra, fé.

    Beijos,

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