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Cultura

Você sabe com quem está reclamando?

by Bailandesa novembro 13, 2006
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Três coisas que sempre ouvi dos holandeses: eles são diretos, sovinas e reclamões. Das minhas observações nada científicas, de quem apenas está aqui há quase cinco meses, posso concluir que sim, a maioria é direta e sem papas na língua. O “não”, ou melhor o “nee” e/ou “niet” são usados despudoramente e as opiniões são disparadas que nem foguetes exocets na Guerra do Golfo. Acho que uma coisa isso deve ter de bom: menos sapos pra engolir e uma digestão mais fácil. Em média, o brasileiro nunca diz não de cara. É um tal de “vou pensar, talvez, vamo vê, quem sabe”, que Deus nos acuda. Sem falar que a gente nunca quer desagradar, né? O peste do filho da sua amiga vem na sua casa, pula de um sofá por outro, puxa o rabo do seu cachorro, faz xixi no seu tapete e o máximo que você fala é:”- ele é danado, né?”. Isso mesmo, a gente engole o cururu sem mastigar e nem arrotar, arrota. Aqui na Disney do Queijo, acho que isso é ruim acontecer, hein?! O povo solta o verbo.

Quanto à sovinice, acho que eles têm sim uma relação cuidadosa com o dinheiro. Não são dados a luxo e adoram descontos, ofertas e cupons. Ao mesmo tempo, vejo que eles adoram sair de férias e investir nas suas casas para fiquem cada vez mais gezellig (aconchegante). Uma outra coisa interessante é que num bar geralmente cada um paga uma rodada para todos. Isso tudo sem muitas métricas tipo “eu já paguei uma, agora é a sua vez”. Acho um jeito legal e descontraído de beber com os amigos. Na sociedade em geral podemos falar da comida que eles não dividem muito e que na mesa não existe tanta fartura, mas sinceramente, não vi bons exemplos de sovinice nos holandeses que conheci. Acho que a aplicação da expressão em inglês “go dutch” ou seja a divisão de cada gole de Coca-Cola bebido na mesa, não pude ver à vera ainda. Uma outra coisa é a cultura de doações. É uma verdadeira Tsunami – que aliás, bateu todos os recordes de doações na época – de comerciais na TV de organizações pedindo doações. É doação pra tanta causa que acho que na Holanda, não dá pra ser rebelde sem causa. Sem falar nas campanhas porta-a-porta e nas ruas. Por essas e outras, ainda não posso abrir o meu bocão e dizer: “É isso aí, o povo é pão-duro mesmo!”.

Vamos ao terceiro ponto: reclamações. Ah sim, este é um tema interessante. A primeira coisa que eles reclamam – e muito – é do tempo. Aliás, uma verdadeira obsessão nacional. Pior do que o seriado Lost e peitos turbinados no Brasil. É quase impossível sair de casa e não se esbarrar com um cabeça-de-queijo reclamando do tempo (seja ele presente, passado ou futuro). E é claro o Governo, alvo maior de todos as zarabatanas holandesas. Agora é engraçado: eles baixam o sarrafo no governo, mas são capazes de ficar numa fila de caixa imensa feito cordeirinhos ou esperar eras por um garçom para ser atendido num bar. Se vocês repararem é exatamente o inverso do Brasil. Lá a gente roda a baiana, pernambucana, mexicana numa loja, ao telefone, no supermercado se formos mal-atendidos. Agora se o assunto é o Governo, a gente desiste, acha que não tem jeito, que é assim mesmo e se curva à incompetência e desleixo de séculos. Ou melhor, contrata um despachante, profissão típica e quase exclusiva do nosso amado Pindorama. Parando pra pensar um pouco, acho que em relação ao governo, aqui, eles acham que têm o direito de reclamar porque pagam um fortuna de impostos, vêem onde o dinheiro é gasto e acreditam que têm o poder de mudar alguma coisa. É a confiança de que serão ouvidos. Um exemplo bem ilustrativo é o dia em que o orçamento é apresentado ao povo. Esse é um dia de festa. O Ministro das Finanças (equivalente ao nosso Ministro do Planejamento, acredito eu) vem com uma enorme maleta com o orçamento do próximo ano e apresenta à Câmara. Tudo transmitido pela TV. Ou seja, tudo às claras. Já quando o assunto é privado, como restaurantes, lojas e outros, não vejo essa gana de brigar pelo direito de consumidor. Acho que eles não acham que não têm o poder de mudar uma empresa privada. Será que somos consumidores mais exigentes e inconformados no Brasil?

Imagem: http://trilux.org/
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Depois de morar 12 anos no Rio, uma baiana atravessou o Oceano Atlântico não a nado, mas por amor. Assim, em 2006, nasceu a Bailandesa e o blog que há mais de 10 anos é referência de vida e dicas da Holanda.

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2 comments

Lu Vital novembro 13, 2006 - 6:34 pm

Oi Clarissa tenho acompanhado seu blog e acho bem legal. Moro no Brasil e sou casada com um holandes há 3 anos, do pouco q vi posso falar q tb não acho eles tão sovinas assim, qdo estamos aí na casa de minha sogra ou irmãos dele a mesa é sempre bem farta e o que meu marido diz é q num país q passa pelas durezas de uma guerra e não tem um clima como no Brasil “em q se plantando tudo dá”e o ano todo né,eles aprenderam a cuidar e não desperdiçar. Vou continuar lendo. Bjs Lu

Reply
Tita novembro 13, 2006 - 7:57 pm

Oi Lu, pois é.. realmente não posso falar isso também. O que pude ver até agora, assim como você, é a cultura do não desperdício, que é bem diferente de ser sovina.
Que bom que você está gostando. Fico feliz!
beijos.

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Bailandesa - Clarissa MattosDepois de morar 12 anos no Rio, uma baiana atravessou o Oceano Atlântico não a nado, mas por amor. Assim, em 2006, nasceu a Bailandesa e o blog que há mais de 10 anos é referência de vida e dicas da Holanda. Sinta-se em casa!

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