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Médico na Holanda. A arte do Huisarts

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O sistema médico na Holanda  é um dos maiores desafios de integração no país. Considero-me uma pessoa bem integrada. Consigo me comunicar – e me trumbicar -no idioma e depois de anos, entendo melhor as idiossincrasias dos kaaskoppen (cabeças-de-queijo). Mas se tem uma coisa com a qual ainda bato cabeça é o tal do médico de família, o huisarts.

Moinho - Holanda - © Bailandesa.nl

E aí você chega e precisa ir a um médico na Holanda

Huisarts. A porta de entrada

Aqui, você não pode decidir ir por conta própria a um cardiologista, dermatologista ou qualquer outra especialidade. Todos devem ter um huisarts, que é um médico de família. Esse é um médico generalista que detém o seu histórico, teoricamente conhece bem a sua saúde e vai decidir se você precisa ou não visitar um especialista.

A minha primeira experiência com o huisarts não foi das melhores. Era uma situação de emergência, uma grande queimadura de 2o grau, e o ouvi a seguinte pérola :

sei que está doendo, mas a dor aqui não é o mais importante. Temos é que
prevenir uma infecção.

Foi neste momento, que senti literalmente na pele a estranha relação triangular entre o holandês a dor e o paracetamol. Sim, se você acha que aqui é o paraíso da liberalidade em relação às drogas, lamento informar que isso não é bem assim e muito menos para drogas legais, como um antinflamatório, por exemplo.

Fui para casa com uma receitinha de Paracetamol, com um limite máximo de oito unidades por dia, e só consegui algo adequado ao meu grau de dor depois de dar um show digno de uma égua de rodeio. Mas depois dessa experiência traumática e de outros acontecimentos, aprendi algumas coisinhas que me ajudaram a compreender um pouco mais essa desavença de culturas.

Como achar o seu médico na Holanda

OK, você já sabe o que é um huisarts. Agora como achar essa criatura? Você deve se registar num huisarts próximo à sua casa. Geralmente, procuramos pro uma recomendação, mas se você não conhece ninguém e não consigo nenhuma dica, existe um site, “ik zoek een huisarts” ” eu procuro um huisarts” que pode lhe indicar uma lista de profissionais próximos ao seu endereço. Basta você colocar o código postal da sua rua.

Keukenhof - Holanda - Bailadnesa.nl

Nem tudo são flores quando o assunto é médico na Holanda

Visões diferentes

A grande diferença no tratamento é cultural. A filosofia adotada aqui é o de interferir o mínimo possível no processo de cura . Também, os holandeses são bem mais conservadores em relação aos riscos dos medicamentos e dos procedimentos médicos. No Brasil, um médico  vai lhe passar um antinflamatório ou vai lhe indicar uma cirurgia bem mais facilamente do que na Holanda. O difícil é achar o meio-termo. Então, já sabe: quer seu remédio? Aja com sinceridade. Explique que você vem de uma cultura diferente e que não quer sair do seu consultório sem a receita.

Uma confissão: segundo a minha experiência, o Paracetamol realmente é eficiente pra dor. Tomado de forma regular de 4 em 4 horas, há o alívio da dor. No entanto, somos tão acostumados com a idéia do “remédio forte” que achamos que não vai adiantar. Mas claro que existem situações agudas e para isso é que existem os chamados ” remédios fortes”.

Perguntar não ofende

Uma outra coisa que você vai estranhar é que você não fica com o resultados de exames. Você vai ouvir se está tudo bem ou não e algumas explicações sobre os resultados. Geralmente ele são muito diretos e falam apenas o necessário. Meu conselho: tire todas as suas dúvidas. Pergunte tudo o que saber. Se for um velho problema que você já conhece, demonstre que você tem conhecimento e experiência com tratamentos anteriores.

Você tem direito a acessar os resultados dos seus exames e o seu dossiê médico. Toda pessoa acima de 12 anos tem esse direito. Geralmente, os hospitais mantém os dados em formato digital e você pode solicitar o acesso aos seus dados médicos.

Mercado de Queijos de Alkmaar - Holanda - © Ron Beenen - Bailandesa.nl

Converse com o seu huisarts. Seja no mercado de queijos ou no médico, na Holanda, ser direto conta pontos na negociação

Assistente – passando pelo funil

Você não está se sentindo bem, liga e quer falar com o médico. Situação normalíssima, certo? Certo se não houvesse um beque na defesa chamada o/a assistente. Ele ou ela vai disparar uma série de perguntas, tentando auxiliar no diagnóstico. A sua impressão é de que a mocinha ou mocinho da recepção resolveu brincar de médico ou tirar onda com a sua cara. Não é bem assim. Essa é uma pessoa que recebe adequado treinamento e sabe o que está fazendoe  auxilia e organiza o trabalho do médico. Mas que é irritante, é. Não posso negar.

Dica: que falar sobre mais de umprobelma? informe dirante a sua conversa o/a assistente. Assim, sua consulta será agendada de acordo com o tempo necessário. Não há aquela flexibilidade (e espera) imensa do Brasil.

Todo mundo fala inglês fluente na Holanda

Não caia no conto de que todo mundo fala inglês aqui. Se você mora fora das grandes cidades, você pode ter uma grande surpresa. Até médicos, às vezes, não são tão fluentes assim. Falo por experiência própria. O que fazer? Se você não fala inglês, nem holandês, tente conseguir recomendações de conhecidos, consulado de médicos que falam português ou espanhol ou, se puder, vá acompanhado de alguém que fale o idioma.

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Fale Holandês comigo.

A  troca de Huisarts

Esse profissional que vai te acompanhar, ouvir suas queixas e saber de muita coisa da sua privacidade. Então já sabe que tem que escolher bem e se não está satisfeito, trocar. E aí, aviso logo, você pode encontrar resistência. Existe um acordo tácito entre os médicos de não tomarem pacientes um dos outros. Trocar de huisarts quando você muda de cidade é bem aceito, mas quando a troca se deve por insatisfação, é vista com outros olhos. Mas esse é um direito seu e previsto em lei. Um paciente pode ser rejeitado nas seguintes situações:

– Se não há mais como atender novos pacientes.
– Se o paciente mora muito longe (mais de 15 minutos de viagem – sim, aqui isso é longe!)
– se o paciente for tratado nos últimos seis meses em regime temporário.

A recomendação é de que o paciente tente conversar com o médico e tente explicar a sua insatisfação. Se uma solução não for encontrada, que faça-se a troca. Se encontrar dificuldades, você pode fazer uma reclamação formal na Klachtencommissie Huisartsenzorg, uma comissão de reclamações sobre o serviço de huisarts. Outras organizações que podem ser úteis:

 

A fila para o especialista

Depois de passar pela barreira da assistente e convencer o seu huisarts de que você precisa ir ao especialista, você pensa que todos os sesu problemas estão resolvidos. Aviso que talvez demore mais um pouquinho. As filas para os especialistas podem ser longas e você pode ter que esperar semanas para a sua consulta.

Dica: os seguros saúde têm um serviço que pode acelerar esse processo. Procure se informar com o seu. Também os huisarts, em caso de urgência, aceleram o processo.

Espero ter podido trazer uma pequena luz para um assunto que traz muitos problemas para o processo de adaptação aqui na Holanda. O que recomendo é ter sempre em mente que o melhor remédio é ter informação para tentar entender a outra cultura; e não apenas resistir.

Atualização: 28 de julho de 2017

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19 Comentários

  1. Bailandesa on

    Calma lá, esses remédios você pode comprar. O que não pode são antinflamatório, remédios com cortisona e etc…

  2. Excelente post!!!! muito esclarecedor. Com relacao ao paracetamol eu ja sabia entao trouxe do Brasil meus remedinhos mais pesados para o caso de uma emergencia…claro que o meu namorido achou um exagero – hehehe

    beijo
    Juliette

  3. Bailandesa on

    É isso aí Juliette, voupara o Brasil em breve e vou fazer minha farmacinha 🙂
    Obrigada pela visita e comentário

  4. Clarissa,

    Ninguém definiu melhor o sistema de saúde daqui como você neste post ! Ele deveria estar lá no site da Márcia .
    Eu tive sorte com o huisarts, devo admitir. Os encaminhamentos que precisei para especialista foram dados sem questionamentos.
    No comeco achava um absurdo, mas, aprendi a conviver com esse sitema diferente. Só não consigo entender essa “tolerância” à dor a que nos impõem…

    Um abraco,

    Susana

  5. Clarissa, muito bom o post! Acho que a Dani postou (ou comentou direto comigo) sobre isso em algum momento.

    Fora a espera depois de encaminhado para um especialista, eu acho esse sistema aí coerente e lógico… acho interessante ter um especialista que te conhece realmente bem e há muito tempo e sabe dos teus problemas, sem prejuízo de eventualmente te encaminhar para um especialista.

    Valeu pela info 🙂

    • Oi Fernando, muito obrigada pelo seu comentário. Também acho o sitstema coerente e logico. O problema mesmo é se adaptar à filosofia de “sempre esperar pra ver”. Não existe muito a cultura de investigação, check-ups etc. O alívio a dor não é levado tanto em conta e acho que culturalmente o povo encara como “parte do processo”. Enfim, é mais um choque de culturas do que problemas com o sistema m si. Sem falar que estamos falando do sistema público – pago, é verdade – mas não dá pra comparar com o privado (e para poucos) no Brasil.

  6. Já tive diversas experiências com huisarts, boas e ruins. Ótimas (quando tive pneumonia) e péssimas (vacina errada para minha filha). Nao vou entrar em detalhes por aqui. A última experiência – que classifico como “neutra”- vez foi mês passado quando me vi com um vrouwprobleem (imaginem o que quiser) e não estava a fim de ser examinada ginecologicamente (tá bom, confessei o “vrouw probleem”) pelo meu huisarts. Liguei e direto pra assistente já fui confessando que meu huisarts era excelente mas que eu queria dessa vez uma rápida consulta com uma médicA. Ela perguntou se era um “vrouwprobleem” e na hora me deu um horario com uma médica. No passado isso seria impossível, acho. Mas acho que eles estao deixando de ter um protocolo radical.

    • Oi Anita, é bom saber de histórias bem-sucedidas. Devo dizer que tive ótimas experiências com especialistas, mas com huisartsen ainda não. Concordo que o radicalismo tem abrandado e os médicos mais jovens me parecem mais flexíveis.

  7. Clarissa, confesso que o assunto Huisart é uma pedra no sapato para os brasileiros aqui na Holanda.Minha mãe é médica de família no Brasil e ela concorda com o sistema público na Holanda, porém com algumas ressalvas:
    -Primeiro o mínimo que um clínico geral pode fazer numa primeira visita de um paciente, é examinar a pressão, coração…isso é praxe no Brasil, mas pelo menos comigo não aconteceu.

    – Segundo é que se o médico suspeita de um diagnóstico, ele pode até antecipar a sugestão de uso do medicamento mas penso que em seguida ele tem de confirmar o diagnóstico com exames.Bom, cheguei no consultório com uma suspeita de refluxo, mas daí pra ele me receitar um medicamento e não confirmar o diagnóstico para uma doença crônica…Segundo o médico se os meus exames antigos no Brasil não acusaram nada, eu não preciso repeti-los

    – A outra coisa que você já citou é a falta de política preventiva.Não sei a estatística mas sempre ouço dizer que o holandeses morrem muito de câncer.Mas aqui na Holanda eu só posso fazer uam mamografia qdo tiver 52 anos!!!!!.Eu tenho 42, 3 casos de câncer na família, sendo que um deles – o de mama, aconteceu justamente com minha mãe.O huisart me mostrou um livro onde diz que nesse caso eu ainda não faço parte do grupo de risco, portanto se eu sentir a presença de algum nódulo, posso voltar que ele solicita o exame.Com certeza qdo vou ao Brasil vou fazer o meu exame.

    – Terceira coisa é que todo sistema público controla os exames mais caros, porém há exames básicos como o as análises clínicas, raio-x, etc.Então sofri uma queda terrível de bike e senti o cotovelo direito diferente do outro, além de sentir dor no braço…isso depois de 2 a 3 semanas.O huisart faz uns exercícios no meu braço e me diz que deve ser o trauma da queda.E o raio-x???.Não sou paranóica mas aquele seria um exame básico pra constatar fraturas que muitas vezes não são visíveis a olho nu.Bom, contimuo sentindo o osso do cotovelo e agora qdo voltar lá, vou pedir( exigir) o exame.

    – Sobre a questão da medicação, eu até concordo que no Brasil é um oba-oba…(parece que agora isso até está mudando)e que o paracetamol é muito eficaz em vários casos.Pelo menos aqui me parece que as empresas são bem tolerantes em relacão a doença.Então se o efeito do paracetamol for lento e a pessoa continua mal…o jeito é ficar em casa até melhorar.

    Beijocas

  8. A impressão é que ir a um médico especialista na Holanda, é mais complicado que no SUS! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  9. Oi Clarissa, muito bom o seu texto, gostaria de complementar que na Holanda temos também o direito a “second opinie” caso não estejamos satisfeitos com o conselho de um médico de família ou especialista. Muitos estrangeiros não conhecem essa lei holandesa, mais fica aqui a dica! É importante também se inteirar dos nossos direitos e deveres nessa área, a second opinie está dentro dos direitos! Veja aqui o site oficial do governo holandês:
    https://www.rijksoverheid.nl/onderwerpen/patientenrecht-en-clientenrecht/vraag-en-antwoord/wat-zijn-mijn-rechten-en-plichten-als-patient-en-welke-plichten-heeft-een-arts

  10. Por isso mesmo no Brasil o sistemade saúde mesmo privado é um dos mais caros e mais ineficientes do mundo. Quando uma pessoa que não sabe medicina pode decidir a que médico ir , qual remédio tomar e que exames fazer é o fim da ciência . Quem melhor que um médico bem formado para prescrever medicação , solicitar os exames adequados e fazer os encaminhamentos corretos??? O Brasil é de cabeça para baixo!

    • Oi Ana,
      Obrigada pela sua visita e comentário. Tive nesse primeiro contato. Hoje em dia, tenho uma relação boa, mas mesmo assim, ainda tenho que ser firme e direta se preciso de ir a um especialista ou desejo um remédio mais específico.
      É importante escalrecer que o texto não é uma crítica ao huisarts em si, mas uma maneira de escalrecer as diferenças entre os sistemas e filosofias brasileira e holandesa.
      Volte mais vezes!

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